Inscrições e informações: Instituto de Artes do Pará (IAP), Gerência de Literatura - 40062905 ou 2908.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

                                                               Foto: B L A N C H O T  | D U R A S
Dias 27 de Fevereiro, às 18h30
GALERIA THEODORO BRAGA

LEITURA DRAMÁTICA DO TEXTO:
A Doença da Morte – de Marguerite Duras
 
Av. Gentil Bittencourt, 650, Térreo | Belém 
Informações: (91) 32784578 - 32410655


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013




ECOS DE BLANCHOT & MAX


Velhos homens devem ser exploradores, não importa onde...
Temos de estar sempre nos movendo na direção de uma nova intensidade, de uma
união a mais, de uma comunhão mais profunda...
Nos movendo através de uma desolação escura, fria e vazia: O grito das ondas, o
grito do vento, as águas imensas das gaivotas e dos golfinhos: No meu fim está o
meu inicio (T. S. ELIOT).


Não há espaço, sem tempo. Não há tal coisa como espaço em branco. Sempre se poderá imaginar a vinda – a chegada. Que alguma coisa ainda deve acontecer. Dois homens, um romancista e um poeta, estabelecem um passível jogo. Que estejam tensos, pois o tempo constitui a tensão. Espaço-tempo se dividindo em dois. A respiração, realizada de volta entre um e outro, fala em tempo de silêncio, em espaço de silêncio – a literatura. Um dos homens atende à porta. Olha para baixo. A cabeça inclinada para o chão como um guardião na sala da hospedaria do Castelo. Apenas que aqui ele não está num retrato. Observada, a imagem não o confirma numa morfologia para os olhos que se tornará o demônio de uma longa época. Certo estrabismo a certa semiótica da reflexividade. Ele se desprende da foto, sem no entanto avançar no espaço. O outro não questiona a importância de ficar ali parado, uma vez que também está parado e recolhido em si. Sem rasgar a ilusão de espaço, na distância limite de um saltar para o outro, apertarem-se as mãos: se dá o duplo desvio. As mãos estendidas em silêncio criam lacunas, desprendem-se, desvanecem. Eles que sempre estiveram além dos horizontes da aparência. Agora, face a face, não têm como pronunciar um discurso de circunstância e lançar âncora entre os musgos. Um rastreou o outro, é verdade, mas sem nunca o mapear. Leu o livro “Thomas, o Obscuro” quando ainda escrevia seu segundo livro, e entregava-se definitivamente à feitiçaria do poema. O outro nunca o avistou. Este poderia ser o cenário tardio entre os dois homens. A respiração sempre foi o maior problema para eles. Passeando a vida, o fim à vista. Para eles o desastre cuida de tudo. E o rápido sorriso corajoso não bastaria. A aquiescência da cabeça. O olhar. Tudo isso assusta o inferno dentro deles. Por certo, ele deveria ter gostado de ler com minúcia e atenção insuperáveis o “Anti-Retrato” ou mesmo o “Caminho de Marahu”. A escritura do desterro que tanto o agradava. E teria visto Kafka e Paul Celan, em alguns versos. Os signos da solidão. A experiência do desmoronamento. A falta vivente do ser. Não teria sido exatamente isto a escritura desse outro que, alheio, estranho, lhe bate à porta, num fim de outono? O que seria o mesmo que dizer: desde que entrara para a poesia? Um homem de uma terra desfalecente, onde a vida e a cultura não passam de uma quimera? Onde o poema, justamente depois de um amplo movimento internacional de três poetas, passou a valer menos que qualquer slogan publicitário. Fora do mercado, ter que ganhar a vida – trocar, vender, perder, dar, recuperar, perder outra vez. Amores. Alegrias insensatas. As grandes dores. Um homem impelido a dar seus passos em direção ao ócio e ao silêncio. Para quem a amizade pela poesia não se estrutura em ter que percorrer o mesmo caminho. Amizade é mudar o caminho. Errá-lo. Não entrar na geração. Surpreendê-la pelos flancos. O Inesperado. Não esperar que se confirme a Revelação. E como aquelas doze baladas a que Nietzsche se refere que contamos sempre errado. Não há o encontro marcado, sequer conosco mesmo... “Mas como eu, ele foi parecido comigo”. De onde poderá ter ecoado isto?


Ney Ferraz Paiva, 20 de fevereiro 2013.
Imagem: Jacob Bijani

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Programação Preparatória ao Colóquio, que acontece em Março, em Belém.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

ALBERTO AMARAL e NILSON OLIVEIRA
PÚBLICO JOVEM CELEBRA MAURICE 
BLANCHOT fevereiro é o mês de Blanchot em Belém 

Como entrar na obra de Maurice Blanchot? Tentamos algumas possíveis passagens ontem na Galeria Theodoro Braga, pelas "entradas múltiplas" nas conversações com Alberto Amaral e Nilson Oliveira. As conversações giraram em torno de Blanchot e Lévinas, abordagem da Amizade feita por Alberto Amaral considerando "o infinito como lugar do estranhamento". Por sua vez, Nilson Oliveira, tratou de considerar as "derivações do desastre" na obra blanchotiana e em seus intercessores. Na próxima quarta-feira, 20, dia da morte de Blanchot, tentaremos entrar na sua obra por outra extremidade. Izabela Leal conectará Blanchot a outro grande escritor francês, Charles Baudelaire, considerando o tema da "encenação da morte e a poesia moderna". Ney Ferraz Paiva estabelecerá outro cruzamento ao falar dos "ecos" entre Blanchot e Max Martins. Consta que Max era leitor de Blanchot. Que o teria lido quando escrevia seu segundo livro, "Anti-Retrato", publicado no início da década de 1960, período seminal para a literatura, a arte e o pensamento pelo mundo.








Público na abertura da exposição "Solidão Essencial Solidão no Mundo - Diálogos
com  Maurice Blanchot", na Galeria Theodoro Braga, visitas até 07 de março.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

BLANCHOT E SEUS INTERCESSORES
ciclo de conversações - performances – projeções

DIA 15 DE FEVEREIRO
Galeria Theodoro Braga - às 18h
Av. Gentil Bittencourt - Nº 650 | Belém

Informações: (91) 32784578 - 3241655

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


Fala dos confins

O lugar da literatura na obra de Foucault
Peter Pál Pelbart
Seria preciso invocar o nome de Maurice Blanchot para lembrar a voz quase inaudível que marcou, de maneira inconfundível, toda uma geração de pensadores, entre os quais se incluem Foucault, Deleuze e Derrida. Blanchot, a cantora Josefina da filosofia francesa do pós-guerra… Na novela Josefina, a cantora ou O povo dos camundongos, de Kafka, o povo de camundongos tem grande admiração por Josefina e até sente que precisa de sua voz para reunir-se, mas não compreende o que nela é tão especial e nem sequer se é especial – o seu canto mais parece um chiado, ou mesmo um silêncio. Pode ser que sua glória resida, afinal, neste gracioso e indecifrável mistério: talvez ela jamais tivesse cantado, mas à sua maneira, com o seu “nada de rendimento”, livrava o povo das “cadeias da existência cotidiana”, como afirmaram Deleuze e Guattari.
Blanchot chamou a atenção para esta situação paradoxal em Kafka: nunca sabemos se estamos presos dentro da existência cotidiana (e “nos voltamos desesperadamente para fora dela”) ou se dela estamos excluídos (por isso “em vão nela buscamos sólidos apoios”). Fronteira invisível e sempre deslocada, entre a vida e a morte, entre sair e entrar, entre ansiar pela comunidade ou dela apartar-se na solidão. Kafka o descreveu na forma de um exílio: “Agora já sou cidadão nesse outro mundo que tem com o mundo habitual a mesma relação que o deserto com as terras cultivadas”. Mas Blanchot adverte para o sentido desse desterro, que não cabe considerar como uma fuga: esse outro mundo em que Kafka mora não é um além-mundo, sequer é outro mundo, mas o outro de todo e qualquer mundo. Para o artista ou o poeta, conclui ele, talvez nem existam dois mundos, como queria Kafka, mas mundo algum, nem sequer um único mundo, e apenas o fora no seu escoamento eterno..
A antimatéria do mundo
Foucault não ficou indiferente a essa exterioridade. O autor de História da loucura confessa, na primeira entrevista concedida após sua publicação, em 1961, que seu livro responde a duas influências principais. Por um lado, seu interesse pela presença da loucura na literatura – Blanchot, Bataille, Roussel –, por outro, a ideia de estrutura tal como Dumézil a trabalhou. Mais do que os romances escritos por Blanchot (Thomas l’ObscurAminadab, L’Arrêt de mort, Le Très-Haut etc), talvez seja preciso evocar a leitura sedutora que ele propôs de autores que tiveram com a loucura uma proximidade extrema, tais como Hölderlin, Sade, Lautréamont, Nietzsche, Artaud, em suma, toda essa linhagem que comparece no fim da História da loucura. Com efeito, nesses ensaios, Blanchot ressalta uma dimensão à qual Foucault, mas igualmente muitos de seus contemporâneos, não ficarão indiferentes: a vizinhança necessária entre palavra e silêncio, escritura e morte, obra e erosão, literatura e desmoronamento, experiência de desamparo e colapso do autor. Como diz Blanchot em Le livre à venir: “O que é primeiro não é a plenitude do ser, é a fenda e a fissura, a erosão e o esgarçamento, a intermitência e a privação mordente: o ser não é o ser, é a falta de ser, a falta vivente que torna a vida desfalecente, inapreensível e inexprimível”. Blanchot redescobre na literatura um espaço rarefeito que põe em xeque a soberania do sujeito. O que fala no escritor é que “ele não é mais ele mesmo, ele já não é ninguém”: não o universal, mas o anônimo, o neutro, o fora. A obra como essa experiência que arruína toda experiência, que se coloca aquém da obra, “o aquém onde, do ser, nada é feito, onde nada se realiza, a profundidade da inoperância do ser”. Experiência insólita, que desapossa o sujeito de si e do mundo, do ser e da presença, da consciência e da verdade, da unidade e da totalidade – experiência dos limites, experiência-limite, dirá Bataille.
Todo esse leque temático já está presente no prefácio original à História da loucura, posteriormente abandonado. Ali Foucault faz referência a uma linguagem originária, “muito frustra”, em que razão e não-razão se falam ainda, por meio dessas “palavras imperfeitas, sem sintaxe fixa, um pouco balbuciantes”. Por meio delas, diz ele, os limites de uma cultura são questionados para aquém de sua dialética triunfante. Aquém da história, a ausência de história, um murmúrio de fundo, o vazio, o vão, o nada, resíduo, rugas. Aquém da obra, a ausência de obra, aquém do sentido, o não-sentido. Aquém da razão, a desrazão. Experiência trágica encoberta pelo surgimento da loucura enquanto fato social, objeto de exclusão, de internamento e de intervenção. Como fazer para que a desrazão, na sua alteridade irredutível, na sua “estrutura trágica”, interrogue o nascimento da própria racionalidade psiquiátrica que a reduziu ao silêncio ao convertê-la em loucura?
 Em todo caso, lembremos os dois termos do título original da edição de 1961, Folie et déraison,histoire de la folie à l’âge classique. Para além dos mal-entendidos líricos que o binômio Loucura e Desrazão, ulteriormente suprimido, suscitou, ele continua a nos intrigar. No seu ensaio sobre esse livro, Blanchot se pergunta se no espaço que se abre entre loucura e desrazão a literatura e a arte poderiam acolher essas experiências-limite e, assim, “preparar, para além da cultura, uma relação com aquilo que a cultura rejeita: fala dos confins, fora da escrita”. Ao que Foucault responde, nesse diálogo que eu reconstruo a meu modo, com o exemplo Blanchot. Nele prima o esquecimento não-dialético, a proliferação em direção a uma exterioridade nua, a linguagem como murmúrio incessante destituindo a fonte subjetiva de enunciação bem como a verdade do enunciado, a emergência de um anônimo, livre de qualquer centro ou pátria, capaz de ecoar a morte de Deus e do homem. “Ali onde ‘isso fala’, o homem não existe mais.” Contra a dialética humanista, que por meio da alienação e da reconciliação promete o homem ao homem, Blanchot teria exprimido o esboço de outra “escolha original” que emerge em nossa cultura. De toda forma, se a linguagem não é, para Foucault, “nem a verdade nem o tempo, nem a eternidade nem o homem, mas a forma sempre desfeita do fora”, entende-se por que ele pôde acrescentar, fazendo eco a Kafka e a Blanchot, que a escritura não é parte do mundo, mas sua “antimatéria”.
A parte do fogo
Já podemos avançar uma hipótese mais geral. Se nesse primeiro momento de seu trajeto Foucaultacredita na literatura é porque acredita na sua exterioridade. E se lhe interessa a linguagem da loucura é porque nela está em jogo essa mesma exterioridade. Desse ponto de vista, a escritura e a loucura estariam no mesmo plano, tendo em vista seu caráter não-circulatório, a inutilidade de sua função, o caráter de autorreferência que lhes é próprio. Mas, também, seu poder transgressivo – “a fala absolutamente anárquica, a fala sem instituição, a fala profundamente marginal que cruza e mina todos os outros discursos”. A literatura e a loucura pertenceriam ao que Blanchot chamou de A parte do fogo, aquilo que uma cultura reduz à destruição e às cinzas, aquilo com o que ela não pode conviver, aquilo de que ela faz um incêndio eterno.
Porém, no momento mesmo em que explicita esse lugar da literatura, Foucault também já se pergunta se a época em que o ato de escrever bastava para exprimir uma contestação em relação à sociedade moderna não estaria ficando para trás. Ao reaver o espaço de circulação social e de consumo, talvez a escritura, recuperada pelo sistema, tenha sido vencida pela burguesia e pela sociedade capitalista, deixando de ficar “de fora”, não mais conservando sua exterioridade. E indaga: para passar para o outro lado, para incendiar-se e consumir-se, para entrar num espaço irredutível ao nosso e num lugar que não fizesse parte da sociedade, será que agora não seria preciso fazer outra coisa que não literatura? E novamente evoca Blanchot: se hoje descobrimos que devemos sair da literatura, abandonando-a a seu “magro destino histórico” fixado pela sociedade burguesa, foi Blanchot quem nos indicou o caminho. Aquele que mais esteve impregnado de literatura, mas sob um modo de exterioridade, é aquele que nos obriga a abandoná-la no momento em que ela se torna essa interioridade confortável em que nos comunicamos e nos reconhecemos.
Perguntamo-nos se Foucault não teria, por meio do caso “literatura” e “loucura”, esboçado um diagnóstico mais geral, referente ao estatuto da própria exterioridade em nossa cultura. Toni Negri e Michael Hardt tentaram mostrar, recentemente, que o capitalismo mundial integrado assumiu a forma do Império, ao abolir toda exterioridade, devorando suas fronteiras mais longínquas, englobando a totalidade do planeta, mas também seus enclaves até há pouco invioláveis, acrescentaria Jameson, como a Natureza e o próprio Inconsciente. Talvez esse diagnóstico tão cruel quanto precoce de Foucault, e sua realização imperial planetária, lancem luz sobre nossa claustrofobia contemporânea. É o mundo sem fora, é o capitalismo sem exterior, é o pensamento sem exterioridade – diante do qual o fascínio pela loucura como bolsão de exterioridade, predominante há algumas décadas, soa hoje completamente ultrapassado.
Mudança de perspectiva
O que terá feito Foucault mudar tão radicalmente de perspectiva? Certamente o trabalho sobre as prisões, a nova problematização do poder e, consequentemente, o entendimento retrospectivo de que a “loucura não é menos um efeito de poder que a não-loucura”, de que ela é, “segundo uma espiral indefinida, uma resposta tática à tática que a investe”, e que talvez não caiba supervalorizar o papel do manicômio e de suas muralhas, já que ele deve ser entendido desde fora, isto é, como uma das peças de uma estratégia positiva “mais ampla e exterior” que, por sua vez, está na origem de uma tecnologia da psique.
Depois dessa nova perspectiva aberta pelo período genealógico, em que “sempre se está no interior”, o que terá restado da exterioridade? Não podemos seguir os meandros desse destino ao longo de seu trajeto teórico, e ficaremos num único exemplo inteiramente esclarecedor, o da experiência-limite já na última fase de sua obra. Em 1980, ao evocar essa experiência pela qual o sujeito se arrebata a si mesmo, levado ao seu próprio aniquilamento ou dissolução, tema caro aos anos 1960, Foucault já não a associa à experimentação da exterioridade de uma cultura, como anteriormente – a sua parte do fogo –, mas a uma experiência pessoal e teórica, pela qual seria possível pensar diferentemente. Se a literatura ou a loucura já não constituem uma exterioridade absoluta (pois tudo é interior), a experiência-limite é preservada e valorizada enquanto uma operação sobre si mesmo. Não experiência vivida, explica ele, mas o invivível para o qual é preciso fabricar-se. Não mais a transgressão de uma fronteira ou um interdito (mesmo se os nomes de Bataille, Blanchot e Nietzsche retornam), mas demolição e refabricação de um si. O fora ganha uma surpreendente imanência subjetiva.
Publicado originalmente na Revista Cult 134 - Imagem: Miranda Lichtenstein

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

BRIGITTE GRIGNA
“L’instant de ma mort” – Maurice Blanchot: uma homenagem

Solange Rebuzzi[ 1]


No final de junho de 2002, chegando a Paris, qualquer leitor encontraria a vitrine da livraria PUF[ 2] – no Boulevard Saint Michel – completamente ocupada com a obra de Maurice Blanchot. Eram fotos, cartas, alguns objetos pessoais e livros - muitos livros. Lá dentro, uma enorme mesa próxima à porta exibia em pilhas, os livros do nomeado “último escritor”.
Encantada e assustada eu mexi lentamente nos livros, e toquei-os com extremo cuidado, indagando-me: “por que os livros de Blanchot e a incrível vitrine estão assim expostos?”
Entre os livros que consegui escolher para adquirir – um pequenino e re-editado pela Gallimard recentemente – “L’instant de ma mort” – de apenas 9 páginas.


O livro


Este pequeno livro conta, em narrativa de primeira pessoa, que um jovem – um homem ainda jovem – foi impedido de morrer pela morte mesma...
e o pequeno récit persegue detalhes do dia de um jovem francês, no final da Segunda Grande Guerra. Algumas reflexões fragmentadas traduzem os instantes, talvez vividos – quem sabe?!
O jovem francês é colocado diante do pelotão de fuzilamento de soldados alemães nazistas, que pretendiam executá-lo ali mesmo, em frente à sua família (às mulheres da família). Exposto e percebendo a morte tão próxima, o jovem relata que sentiu uma leveza extraordinária: – “o encontro da morte e da morte ?” Para afirmar em seguida: “uma espécie de beatitude (nada feliz todavia).”
Ao terminar a narrativa do livro, ele declara:
– “Seria isto a guerra: a vida para alguns, para outros a crueldade do assassinato”.(L.i. d. m. M, p.15)
No livro publicado pela primeira vez em 1994, pela pequena editora Fata Morgana, o leitor se depara com o compasso/descompasso da experiência com a violência e o trauma. Um relato que retorna na escrita, em sua possibilidade de se fazer inscrever. Mas Blanchot viveu, e viveu até os 95 anos de idade. E no percurso de sua escrita, encontramos um combate que faz trabalhar o que testemunha e o que se escreve em silêncio, no texto em fragmento. Falando do que não se diz linearmente, e não se diz todo, o escritor conclui:
“Que importa. Só permanece o sentimento de leveza que é a
morte mesma, ou para dizer mais precisamente, o instante
de minha morte que a partir deste momento sempre
persiste”.
(L.i.m.M, p. 18)
No que persiste e insiste – um impossível se apresenta. Blanchot percorre “o instante” em seu desdobrar obra – escreve e pensa sobre a morte e o morrer neste texto ficcional, poético e teórico – inclusive, sobre a própria morte.
Alguns personagens como “J” do livro L’arrête de mort,[ 3] escrito em 1948também chegam a nos chocar pela intensa dor, enquanto o narrador se confessa inteiramente tomado pela experiência do morrer:
“Quem me desviou do caminho? Meu espírito justo. Quem faz com que agora, cada vez que meu túmulo se abre, eu encontre nele uma ideia bastante forte para reviver? O próprio riso sarcástico de minha morte. Mas saibam que lá aonde vou, não há obra, nem sabedoria, nem desejo, nem luta; lá onde entro,
ninguém entra. Este é o sentimento do último combate”.
(P.d.M, p.80)
A palavra de Maurice Blanchot permanecerá entre nós – com o assombro que não se apagará em nossa memória – e da morte do “último escritor” nada sabemos. Um “nome familiar e estranho” como nos disse Derrida[ 4], de alguém que deu um testemunho sempre nos fazendo pensar. Podemos, hoje, dizer que “ele morre sem desaparecer mais ainda que desapareceu sem morrer”.
Permanecemos com o seu vestígio...
A Maurice Blanchot em sua
invisibilidade,
merci!
Texto lido em homenagem ao escritor Maurice Blanchot, na Escola Letra Freudiana, logo após sua morte.

Notas:
[ 1] Poeta e Psicanalista.
[ 2] PressUniversitaire de France, livraria e editora, em Paris.
[ 3] Traduzido no Brasil como Pena de morte pela editora Imago, por Ana de Alencar.
[ 4] Un témoin de toujours, título do texto pronunciado pelo filósofo Jacques Derrida, no momento da incineração do escritor Maurice Blanchot no dia 24 de fevereiro de 2003, na França.